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  • Christina Brazil

Um passo...*

Atualizado: Abr 13


Às vezes sinto como se estivesse em um filme de faroeste. Olho para uma estrada de terra sem fim, em pleno deserto do Atacama, sol a pino, nada ao redor, não há nenhuma sombra, nem água... não há porto seguro... só resta continuar a caminhar, em frente... sempre em frente...

Quando me sinto assim, sempre lembro da clássica cena no campo de futebol americano do filme “Desafiando Gigantes”***. Nesta cena, diante da desmotivação dos jogadores, o treinador consegue mostrar que quando não olhamos para trás, ouvimos a “voz que nos impulsiona” – quer seja interior ou exterior (que no caso do filme foi o a do treinador, que sem cessar dizia: – continue... continue... isso aí... mais um pouco... mais um pouco... vamos lá... você consegue garoto... força aí... dê o melhor de si... você consegue mais do que isso.. Você tem força, dá o melhor de si!... Negocie com seu corpo para encontrar mais forças, mas não desista! Vamos lá garoto, dê o melhor de si! Você consegue!!! Não desista! Você consegue... Vai, só mais um pouco... passo após passo... você consegue garoto!! Não deísta... é só coração agora... você vai conseguir!!!) e continuamos andando com todas das nossas forças... sempre nos surpreendemos quando voltamos nosso olhar e vislumbramos onde conseguimos chegar.

Todos os dias eu abro meus olhos, e, diante de um turbilhão de coisas para dar conta, eu penso: só mais um passo... só mais um passo... um de cada vez...

O primeiro marco desta jornada aconteceu quando, aos trancos e barrancos conclui a antiga Classe de Alfabetização, hoje primeiro ano do ensino fundamental. A escola organizou uma formatura com toda pompa e circunstância para as crianças. Minha mãe comprou vestido novo e disse para meu pai que eles deveriam ir com a melhor roupa e comemorar muito, visto que não sabiam se haveria outra formatura: – Não sabemos até onde ela conseguirá ir!

A cada ano que passava, eu dava um pequeno passo, um de cada vez, e com eles, passaram-se sete anos... Formatura da antiga oitava série, hoje nono ano, estava concluindo o Ensino Fundamental. Lembro como se fosse hoje: meus passos eram mais firmes, mas ainda não vislumbrava o fim da estrada. Sonhos, muitos sonhos, ainda não tinha noção da vida de adulto. Minha mãe e meu pai, mais uma vez, com a melhor de suas roupas: – Não sabemos até onde ela conseguirá ir!

Só mais um passo, um de cada vez... E com eles passaram-se três anos: formatura do Ensino Médio. Já tinha passos firmes, caminhava sempre em frente. E como não podia ser diferente: minha mãe e meu pai, mais uma vez, com a melhor de suas roupas: – Quem sabe a faculdade? Não sabemos até onde ela conseguirá ir!

Nem sempre acertamos nos primeiros passos, pensei em desistir, mas continuei: só mais um passo, um de cada vez... Cinco anos se passaram e me formei no Curso de Direito. Todos Satisfeitos, com suas melhores roupas. Mas eu não: – até onde posso ir?

Comecei a me defrontar, cara a cara, com a dura realidade do mercado de trabalho e o massacre da exclusão das pessoas com deficiência. Meus passos titubearam, busquei novos rumos... Não sabia para onde ir: – só mais um passo... tenho que correr!

Não podia perder oportunidades, um universo se desvelava a cada dia... um turbilhão de coisas... só mais um passo, um de casa vez... tenho que dar conta de acompanhar as outras pessoas... preciso correr!

Resolvi dar uma passada mais larga, ousar... quase não consegui, titubeei. Já cursando Pedagogia, entrei para o Mestrado em Educação. Mas, eis que chega o dia da minha Defesa de Dissertação. Um Grande Passo... Consegui: Mestra em Educação. E mais uma vez todos estavam lá... com suas melhores roupas: – Nunca imaginamos que ela chegaria aqui!

Logo depois, outro passo, menos ousado: Conclui o Curso de Especialização em Educação Especial, com ênfase em Deficiência Visual. Acho que não dei tanto valor a esse passo que foi dado logo depois do Mestrado. Estava só, no dia da defesa do Trabalho de Conclusão de Curso. Mas hoje entendo que também foi um Grande Passo... mais um passo...

Hoje, continuo caminhando, sem rumo, sem direção: – Para onde ir?

Corpo cansado, pés machucados de tanto andar, correndo em busca de sonhos, que como castelos de areia, se desfizeram, não resistiram à força implacável dos ventos soprados por uma sociedade excludente. Penso em descansar, dar uma trégua – respiro fundo – lembro da minha condição social. Imediatamente meus olhos se voltam aos céus e eu decido: só mais um passo... só mais um passo... um de cada vez... tenho que ter força!

Não consigo mais correr, apenas caminho – aqui e agora –, sinceramente, a única coisa que eu sei, é que nesta jornada, por onde passo, procuro deixar um pouco de mim.

...Agora é só o coração...

... Passo após passo...

...Um de cada vez...

Notas:

* Texto revisado, o original foi publicado em 21/09/2014 no Tumblr (http://inclusaocec.tumblr.com/)

** Imagem by Christina Brazil (set/2014)

*** https://www.youtube.com/watch?v=HbeGO4EIVA4


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