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  • Christina Brazil

Vamos a Andrômeda?


Desenho feito por Christina Brazil. Em um pequeno barco de madeira há uma mulher sentada de costas, ela está de chapéu palha com um laço de fita rosa, veste um maiô cinza. ao fundo o oceano em um degradê de verde, do mais claro para o mais escuro, no horizonte. No céu os tons de rosa se misturam com o amarelo do sol que está ao centro. vê-se três gaivotas voando.
Alma Viajante

Esta semana resolvi revistar as músicas do Sagrado Coração da Terra, uma banda de rock progressivo que gosto muito. Eu tenho muita história pra contar sobre apresentações teatrais que fiz e coisas que vivi que estão diretamente relacionadas às músicas deles.


Hoje trago um texto que escrevi com base em algumas músicas do álbum A Leste do Sol, Oeste da Lua do ano de 2000. Eu lembro que enquanto escrevia, sentia a energia da poesia, da harmonia e da melodia das músicas, que trazem uma reflexão profunda que transcende as ideias mundo da ciência de Descartes, de uma sociedade moderna submersa em um oceano de padrões e estigmas.


Aos trancos e barrancos, remendos e cacos Chegamos às praias do terceiro milênio. Com os pés feridos e sujos tocando de leve o límpido oceano de Aquários. Com o enorme peso, o custoso fardo da técnica sem ética da civilização Num Mundo tão chato e moderno atado por invisíveis teias e milhões de cabos **

Faz mais ou menos nove anos que me dispus a "aceitar" (com aspas por causa do contexto da época) a viver em uma condição social e ideológica de “deficiente” (sim, com aspas deliberadas, por uma triste ironia) com tudo que este conceito carreia. Na época acreditava que a melhor forma de entender ou conhecer alguma coisa era vivenciar, experimentar, tocar etc., e, nesse caso, interagir como sujeito parte de do processo. Alegoricamente vivi em uma espécie de “ritual pagão de sacrifício”, em que a mente e os sonhos eram as oferendas.


Uma amiga, em um momento de crise, me disse: – Chris este lugar nunca foi o seu... – e não era, e não é... Existem muitas formas de explicar o sofrimento do estigmatizado, entretanto, ele ”pode perceber geralmente de maneira bastante correta que, não importa o que os outros admitam, eles na verdade não o aceitam e não estão dispostos a manter com ele um contato em 'bases iguais'. Ademais, os padrões que ele incorporou da sociedade maior tornam-no intimamente suscetível ao que os outros veem como seu defeito, levando-o inevitavelmente, mesmo que em alguns poucos momentos, a concordar que, na verdade, ele ficou abaixo do que realmente deveria ser” (GOFFMAN apud ARAÚJO, 2013, p. 33-34).


Outra forma de se descrever a sensação do estigma, vivida por mim, é que parece que nossa alma está com obesidade mórbida... e “a vergonha se torna uma possibilidade central, que surge quando o indivíduo percebe que um de seus próprios atributos é impuro e pode imaginar-se como um não-portador dele" (idem). Ficou mais fácil entender agora?


“Os estigmas podem verdadeiramente se constituírem fatores de exclusão social, seja porque aquele que acredita ser portador de deficiência desiste de buscar oportunidades, seja porque as marcas socialmente negativas mostram-se inaceitáveis por uma sociedade que cultua valores, como a 'perfeição' e a beleza em padrões preestabelecidos” (idem, p.33).


– Agora eu acho que já deu... né? (como se diz coloquialmente)


E sobre a noite dos tempos, a luz vigilante da estrela nos diz: Se quem tem boca vai a Roma, quem tem coração irá a Andrômeda! ***

– Vamos a Andrômeda?


Pouco tempo depois dessa experiência, ministrei uma aula sobre as políticas públicas e movimentos sociais de inclusão em um curso de pós-graduação. Desse momento em diante tive mais segurança em falar, exemplificar e incentivar. Aliar a experiência de vida ao conhecimento formal, científico, jurídico, às questões culturais que aprisionam a mente é um artifício eficaz, mas que, a meu ver, se não partir do coração de quem fala, dificilmente tocará os corações dos ouvintes.


Agora é hora de transmutar o peso estigma em:


Em teu sonho um anjo vem dizer Que as estrelas tem sono e vão dormir A mão rosa da aurora e a luz do sol Parecem dizer acorda menina Outro dia já vem Rios de gente Nuvens de fumaça Que escondem a luz da manhã Rugem os motores Da grande cidade E abafam a canção dos pardais O mundo eh tão grande assim Não pode caber Nas mãos pequenas do amor Que carregam a cada dia Pequeninas sementes Nos sonhos humildes Que a cidade grande escondeu Na sombra dos arranha céus Outro dia já foi e você vem Traz pra casa os sonhos que teceu Mas se o mundo girar e o céu cair O que vai restar saber resistir Imune aos vendavais Volta pra casa De novo aos meus braços Esquece o que o mundo te faz Vem que eu te ponho no colo Te conto uma historia Te faço dormir O mundo eh pequeno demais pra conter A imensidão do amor As lágrimas da estrela mãe Oceano infinito Que aos poucos abre fendas Nos corações de pedra Nos muros desse velho mundo ****

Nossa alma não possui deficiências, a "deficiência" é um conceito social, podemos ensinar nossos olhos a ver atém das formas do mundo físico. A mente pode e deve transcender a visão concreta (olhos), ou seja, podemos mudar a relação entre a capacidade / acuidade visual mensurável com a mente, focalizando nossa atenção no que está vivo e operante, sentindo o mundo em sua rica complexidade de formas, sensações, percepções, símbolos, ampliando nossa consciência e, assim, tornando possível experimentar o novo. Entretanto, isso só é possível, se unirmos nossa mente ao nosso coração.


– Roma é pouco.. muito pouco... diga adeus ao velho mundo...

– Vamos a Andrômeda! Te espero lá.


Até o próximo texto!


 

Notas:

* Este texto está revisado e adaptado para 2022, foi originalmente escrito e publicado no antigo blog Inclusão: casos e causos em 2013.


** Música A Leste do Sol, Oeste da Lua de Sagrado Coração da Terra, álbum A Leste do Sol, Oeste da Lua, 2000. Escute A Leste do Sol, Oeste da Lua no Spotify. O álbum completo está disponível no YouTube no link: https://www.youtube.com/watch?v=k-7I00yFvWA


*** Idem.


**** Música Lágrimas da Mãe Mundo, álbum A Leste do Sol, Oeste da Lua, 2000. Escute Lágrimas da Mãe Mundo no Spotify. O álbum completo está disponível no YouTube no link: https://www.youtube.com/watch?v=k-7I00yFvWA


 

Referência e Dica de Leitura:


ARAUJO, J. F. Depois da Lei de Cotas: um estudo dos resultados da política de inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Rio de Janeiro: Livre Expressão. 2013.

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